Pessoas
e uso de drogas – uma pequena reflexão
Por Profº Dr. José Luiz Crivelatti de Abreu - Consultor do
Curso de Graduação em Psicologia
O uso de drogas ilícitas (e,
de certo modo também das chamadas "drogas lícitas",
como as bebidas alcoólicas, o tabaco e os medicamentos psicotrópicos)
sempre está relacionado com necessidades psicológicas das
pessoas: satisfação da curiosidade, comprovação
de que se é capaz de enfrentar desafios, a intenção
de "ser aceito" por grupos de amigos.
O motivo principal, entretanto, que está por detrás de tudo
isso e do qual as pessoas nem sempre estão conscientes, é
a busca do preenchimento de um vazio interior e existencial, resultados
do desamor, da desvalorização e da falta de objetivos na
vida.
Os dependentes de drogas são vítimas? Sim, são.
Eles são vítimas de uma sociedade crescentemente complexa
e competitiva, que tem falhado ao conduzir as pessoas à cidadania,
ao conhecimento de si mesmas e do significado da vida. São vítimas
porque aprenderam, desde cedo, na família, na escola e com outras
pessoas, que as relações são superficiais e pautadas
na vaidade e na dominação, esquecendo que os vínculos
se dão pelo afeto e pelo respeito. Enquanto a personalidade se
constrói sob essas influências, o vazio e a falta de alegria
de viver vão se instalando.
Os dependentes de drogas, quaisquer que sejam eles, são vítimas
de si mesmos e encontram possibilidades de consumo produzidas por interesses
comerciais poderosos. Insensíveis para com o sofrimento humano,
os traficantes querem que os negócios se mantenham e se expandam.
Do ponto de vista da fabricação das drogas lícitas,
não há muita diferença pois, em escala planetária,
a demanda chega a bilhões de dólares todos os meses. O que
fazer?
A resposta é complexa e a superação do uso de drogas
exige forte vontade das pessoas e engajamento de pessoas e instituições.
Inicialmente, as pessoas que utilizam drogas precisam reconhecer que se
encontram doentes e que a melhora da saúde requer uma mudança
de vida.
A seguir, tomar a decisão de parar de usar drogas. Isso não
é fácil, pois há toda uma vida organizada com a presença
delas, como muletas químicas que estão dando suporte à
vida, embora também a arruínem. Tomar tal essa decisão
implica em se comprometer com o autoconhecimento, o entendimento do significado
da vida e o estabelecimento de um projeto para o presente e o futuro...
Significa dar os passos iniciais de um (novo) projeto de vida.É
difícil? Sim, mas não impossível e, ao contrário
do que se divulga, muitos venceram e superaram essa etapa da vida e passaram
a um novo período, mais feliz e com amplas perspectivas para resgatar
a dignidade, a cidadania e o projeto de vida. Uma vez tomada a decisão
de afastar-se das drogas, vem a necessidade de separar-se de pessoas que
as usam. Para construir o novo tempo é preciso evitar contato com
o contexto sócio-afetivo anterior e buscar novas amizades e novas
ocupações. Agora, o cérebro precisa controlar a si
mesmo... Há, porém, enormes chances de se abandonar o uso
de drogas. Isso é necessário, mas não suficiente.
A culpa é das famílias?
Nem todas as famílias contam com pessoas que usam maconha, cocaína,
“ecstase”, cola de sapateiro, solventes, anfetaminas, tranqüilizantes,
antidepressivos, cigarros, bebidas alcoólicas e outras. Por isso,
é quase impossível deixar de pensar que há problemas
em algumas famílias, que eles levam ao uso de drogas e que pais,
irmãos, tios e todos quantos fazem parte do cotidiano da família
têm responsabilidade nisso.
Aqui parece haver uma grande injustiça e uma grande verdade. Os
familiares, sim, colaboram para a fragilidade das pessoas e para motivá-las
ao uso de drogas, mas não podem ser responsabilizados por isso.
Não inteiramente, pelo menos. Acontece que em todos os grupos,
familiares inclusive, há mitos: pessoas que são consideradas
mais fortes, mais inteligentes, mais saudáveis, mais bonitas, mais
criativas... O mesmo vale para as "menos"... São mitos
aos quais as pessoas se adaptam ao longo de sua vida, para serem aceitas,
prestigiadas e, até, amadas. Geralmente, as pessoas que usam drogas
são as “menos”...
Em algumas das famílias isso é muito forte e, assim, nelas
há maior probabilidade de haver uso drogas do que nas demais. A
superação do uso de drogas, aliás, pode se tornar
algo importante para que as pessoas possam evidenciar a necessidade de
avaliar o modo como as relações familiares se colocam e
quais mitos são cultuados. E, também, uma oportunidade para
resgatar as pessoas dos papéis em que foram colocadas desde o nascimento...
sejam esses papéis os de “heróis” (que podem
sofrer por levar consigo a enorme responsabilidade de satisfazer as expectativas
dos familiares) ou de “vítimas” e de “incapazes”
que sofrem a exclusão e as baixas expectativas sobre a qualidade
do seu desempenho, para mencionar somente três dos muitos que as
famílias criam...
E as Instituições?
Tanto quanto às decisões pessoais e as alterações
familiares, as ações das instituições são
fundamentais para ajudar as pessoas a (re)construírem suas vidas
e para prevenir que outras pessoas passem a usar drogas. O descaso das
instituições públicas e privadas para com a qualidade
do conforto urbano e para o estabelecimento de relações
fraternas e de vizinhança é flagrante. Nota-se que quase
nada é oferecido, em termos de lazer coletivo e de atividades culturais
à população, na maioria das cidades. De fato, esse
“nada há para fazer” favorece o ócio e a exposição
às oportunidades para uso de drogas. Como se dizia antigamente,
“cabeça vazia, oficina do diabo”!
As cidades devem manter os jovens ocupados. Secretarias municipais do
Desenvolvimento Urbano e da Saúde, por exemplo, podem trabalhar
em favor da construção de quadras para futebol-de-salão,
vôlei, basquete, “handebol” e organizar torneios permanentes,
bem como atividades em sábados, domingos e feriados como Ruas do
Lazer, em convênio com escolas de todos os níveis. O mesmo
vale para tênis de mesa, futebol-de-botão e dominó.
Além disso, é interessante promover a organização
de Associações de Moradores para grupos de 6 a 10 quarteirões,
de modo a fortalecer relações de vizinhança e as
manifestações populares nas tomadas de decisão sobre
a vida coletiva. As possibilidades são imensas... as pessoas são
criativas e acharão os caminhos necessários para deixar
as cidades melhores para viver...
O que é importante nas ações institucionais? Atrair
as pessoas de todas as idades para atividades sadias e favorecer o estabelecimento
de vínculos de afeto e de confiança. As pessoas experimentarão
um intenso sentimento de “pertencer” a um bairro, a uma comunidade,
à cidade e ficarão mais conscientes da importância
de seus familiares. Com intensa participação social e a
formação de amizades e companheirismo, haverá pouca
ou nenhuma necessidade (e oportunidade) para o uso de drogas.
Haverá uma época em que a humanidade verá a desnecessidade
do uso de drogas?
Sim. Quando a civilização produzir pessoas que respeitem
às demais, que zelem pelos sentimentos, que compreendam e acolham
as pessoas com dificuldades e que as ensinem a se superar e, sobretudo,
que se mostrem solidárias como um ato de amor pela humanidade,
no sentido mais amplo e desinteressado que a palavra pode traduzir. Ainda
longe desse tempo, cabe à Sociedade atual orientar suas ações
para o que há de melhor e mais elevado e trabalhar para que isso
se realize.
|