Mudança de paradigma: a não-maternidade como opção da mulher contemporânea
Por Rosani Gambatto - Acadêmica do 5° período do Curso de Graduação em Psicologia

Poder ter filhos significa necessariamente desejar, conseguir ou dever tê-los? Questões como estas surgem no cotidiano de mulheres que por opção ou circunstância não possuem filhos. O tema da não-maternidade mobiliza emocionalmente várias mulheres, pois, não ter filhos implica em não realizar um potencial, em desviar-se de um padrão construído socialmente, sendo que, a feminilidade para a maioria da sociedade, está associada à maternidade. No entanto, escapando a concepção linear de feminilidade/maternidade, a vida das mulheres contemporâneas pode ter dimensões variadas e satisfatórias, como: carreira profissional, trabalho, estudo, diversão.

Da segunda metade do século XX em diante – com a inserção definitiva da mulher no mercado de trabalho; o acesso à formação profissional e às atividades antes exclusivamente masculinas, o domínio sobre a procriação e o prazer, resultante do advento da pílula anticoncepcional, as alterações da organização familiar e do vínculo conjugal – foram rompidos antigos padrões e, revistas inúmeras convicções (estudo, profissão, carreira, casamento, filhos). Ao ser desvitalizado o ideal da mulher no lar, a relação entre os sexos começa a ser redefinida e as mulheres percebem que essa imagem fixa da maternidade – fecundidade, moldada pela biologia, não necessariamente lhes convém e, pois a estrita circunscrição no papel materno promove a exclusão de outros espaços, considerados por elas, mais importantes no atual momento de suas vidas. E com isso, permanecer sem filhos significa viver uma diferença significativa em relação à comunidade, e sobretudo a comunidade das mulheres-mães.

Principalmente no século XXI, é possível perceber que a sexualidade das mulheres não se encontra mais refletida somente na maternidade. As fronteiras entre o espaço da família e o espaço do trabalho vem sendo redefinidos, o que provoca a falência do modelo referencial de conjugalidade convencional, visto que, a mulher possui outras opções para integrar-se à sociedade. Tendo em vista as transformações dos desejos e necessidades humanas, é possível identificar que lugares sociais pré-definidos e caminhos naturalizados deixaram de ordenar o destino feminino, que se tornou muitas vezes imprevisível. Nesse sentido, as mulheres, estão diante da possibilidade de se auto-inventarem cada vez mais e, no jogo de espelhos socioculturais produzir imagens inéditas, nas quais, inexistem modelos pré-determinados de certo e errado, existindo isso sim, leituras ambíguas e divergentes dessas imagens.

Com tudo isso, é importante rever sentimentos e idéias sobre a maternidade e a não-maternidade, sendo que essa compreensão requer a revisão das expectativas da sociedade, em relação aos papeis femininos tradicionais, bem como o questionamento do instinto materno, do reconhecimento e a aceitação da diversidade dos desejos e das circunstâncias da mulher.