Mobilidade
Urbana, Cidadania e Saúde Psíquica
Por André Luiz Picolli, coordenador
do Curso de Psicologia
Saúde: é melhor prevenir do que remediar! Provavelmente
você já deve ter ouvido essa frase antes. Entretanto, não é tão
provável que você saiba de que modo a manutenção
da saúde e a prevenção de doenças (principalmente
as de ordem psicológica) pode ser realizada por intermédio
de pequenas coisas como uma adequada vida em sociedade.
Você já reparou que o movimento é vida e a estagnação é morte?
Um organismo vivo se movimenta, um organismo morto não. Do mesmo
modo, você já reparou que, o que melhor representa a saúde é o
movimento? Uma criança quando está saudável corre,
pula, sobe em árvores, porém, quando está doente,
não faz nada disso e, do contrario, apenas fica quietinha num canto,
sem ânimo para fazer nada. Ou seja, é o movimento que mantém
a saúde em uma pessoa (organismo) e o melhor exemplo disso, é aquele
que vemos quando o sangue circula pelas veias e artérias do corpo
fazendo com que a pessoa permaneça viva.Usando essa analogia, uma
cidade também pode ser entendida como um organismo vivo, e do mesmo
modo que uma pessoa, o que mantém uma cidade viva e saudável é circulação
de seus integrantes por suas ruas e avenidas. Assim, o movimento é essencialmente
vital tanto para uma pessoa quanto para uma cidade. Por essa razão
qualquer cidade ou centro urbano que queira crescer e se desenvolver adequadamente
precisa planejar e promover a circulação urbana de seus integrantes.
A mobilidade urbana (circulação de pessoas na cidade) está diretamente
ligada com a cidadania, que por sua vez está diretamente ligada
a saúde psíquica das pessoas. Você pode perguntar:
de que modo? E a resposta é simples: A possibilidade de se movimentar
livremente dentro da cidade é a condição primordial
para o exercício da cidadania pois, quando as pessoas podem circular
com facilidade elas se tornam cidadãs, ou seja, integrantes da cidade.
A falta de uma adequada mobilidade urbana, de maneira rápida barata
e segura, restringi o exercício da cidadania, porque o deslocamento
para aquilo que nos torna cidadãos como: o trabalho, o acesso a
hospitais, escolas, às atividades sociais e culturais de visitar
parentes e amigos, ir a bibliotecas, exposições, feiras,
etc, ficam dificultados ou até mesmo impossibilitados. E lembrando
que movimento é vida, quanto mais as pessoas circularem pela cidade,
mais a cidade fica saudável, pois as há um maior contato
entre as pessoas, o que amplia a troca de conhecimento e de cultura, há também
um maior acesso a bens de consumo, fazendo com que o dinheiro circule mais,
o que por sua vez, aquece a economia e possibilita o aumento de riqueza
da cidade em todos os sentidos.
Nesse sentido, é possível perceber que a falta de mobilidade,
contribui para o aumento da pobreza num sentido amplo, pois, não é possível
entender a pobreza apenas como a ausência de dinheiro, mas sim, como
a privação de serviços sociais que servem as mais
básicas necessidades humanas, como a saúde, alimentação,
educação, e a convivência com outras pessoas. Desse
modo, é fácil entender por que a mobilidade urbana e a cidadania
são condições básicas para a saúde psíquica
de uma população. Afinal, a pessoa que não consegue,
por exemplo, ser atendida em um hospital por não conseguir se deslocar
até lá, adoece não só no corpo, mas também,
adoece no psíquico quando percebe que está excluída,
que não pertence a um coletivo que acreditava pertencer. Nesse sentido,
não facilitar a movimentação das pessoas na cidade,
significa promover uma exclusão social que acarreta na própria
negação da cidadania e, conseqüentemente, num adoecimento
individual e coletivo. Uma pessoa que não consegue se locomover
na cidade não consegue ter, literalmente, acesso a tudo a aquilo
que a torna cidadã.
Algumas ciências das áreas Humanas, da Saúde e Sociais,
como é o caso da Psicologia, já sabem que pessoas que não
conseguem exercer sua cidadania, aumentam a probabilidade de desenvolverem
doenças. No caso específico dos transtornos Psicológicos é fácil
perceber que uma pessoa que não tem acesso aos serviços básicos
e essênciais de uma cidade, sente-se menos integrada, e menos pertencente
a comunidade em que vive e trabalha. Assim, uma pessoa nessa condição,
pode apresentar desde simples sentimentos de tristeza e raiva ou até o
desenvolver doenças maiores proporções como a depressão,
por exemplo.
Por essa razão, cada cidadão individual e coletivamente
precisa lutar contra situações de privação
e carências que atingem o coletivo. Os órgãos públicos
precisam desenvolver e subsidiar políticas públicas que facilitem
o deslocamento humano, bem como, a construção e a manutenção
de vias. As entidades privadas precisam investir na produção
do conhecimento que pode aumentar a circulação de pessoas
o que, logicamente, contribui para o crescimento do próprio setor.
Do mesmo modo, as Universidades precisam favorecer a divulgação
do conhecimento nela produzido, por intermédio de parcerias com
entidades públicas e privadas. E por fim, os cidadãos em
geral precisam cada vez mais participar das discussões de políticas
publicas, para auxiliar na administração cidade, bem como,
dar preferência ao deslocamento por intermédio de sistemas
de transporte coletivo, ao invés do transporte autônomo individual,
evitando assim, o surgimento de problemas típicos de grandes centros
como os congestionamentos, poluição e o estresse urbano.
Assim,
você pode perceber que é necessário que toda
a sociedade trabalhe junta para solucionar problemas que são nossos
e produzir a construção da cidadania como, por exemplo, buscando
ampliar a mobilidade urbana nas cidades, que significa um combate a exclusão
social, o que pode ser entendido, antes de tudo, como promoção
da saúde psíquica coletiva.
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