O divórcio e a relação entre pais e filhos
Por Lurdes Neu - Acadêmica do 4º Período do Curso de Psicologia

O divórcio é uma das mais significativas crises da vida adulta que pode ocorrer entre um casal, devido a mudanças surgidas no relacionamento ao longo dos anos. Essas mudanças podem fazer com que as pessoas tomem rumos diferentes na vida, e isso pode refletir de alguma forma na relação dos pais com os filhos.

Atualmente, muitos relacionamentos chegaram ao término devido à inabilidade das pessoas de trabalharem seus conflitos, o que por vezes faz com que muitas crianças sejam privadas da presença de seus pais, do amor, da proteção e do cuidado que os mesmos precisam oferecer. Nesse sentido, o fim de um casamento pode ser traumático tanto para pais quanto para filhos, e o relacionamento entre ambos dependerá muito do modo como os pais conduzem e legalizem o divórcio.

Os conflitos permanentes e a dificuldade em bem conduzir o processo do divórcio podem causar um efeito negativo no bem estar psicológico dos filhos. Parte do estresse que eles enfrentam ocorre por questões conflitantes, como por exemplo: a criança pode sentir a necessidade de passar mais tempo com a mãe ou com o pai, enquanto estes, por sua vez, podem querer, ou precisar, ficar sós para elaborarem melhor o momento pelo qual estão passando.

Nessas condições, o casal que enfrenta uma separação tende a transmitir mensagens confusas a seus filhos. Podem exercer sua autoridade de modo exarcebado e ao mesmo tempo pedir que as crianças, adolescentes e os jovens sejam mais independentes. Não é raro os pais, durante este período de crise exarcebada, agirem de modo incoerente ou fazerem afirmações do tipo “Eu estou zangado(a) com sua mãe (seu pai), mas não quero que você se aborreça com ela(ele)”. Em meio a tal crise, os filhos podem perceber a imensa confusão em que seus pais estão mergulhados, como por exemplo, o casal pode enfatizar constantemente que os filhos devam valorizar e priorizar um bom relacionamento familiar, enquanto o próprio relacionamento deles está se “despedaçando”.

Para que o divórcio não se transforme em um evento traumático, os pais precisam ter consciência da dificuldade que tal experiência pode causar no presente ou futuramente na vida dos filhos como, por exemplo, por vezes, as crianças podem desenvolver um sentimento de culpa em relação ao acontecido, ainda que os pais lhes mostrem que eles não tiveram a menor influência no divórcio.

Os pais precisam ser honestos, contando aos filhos o que está acontecendo, evitar usá-los como único suporte emocional, e deixar claro que não são objetos de disputa, ao invés disso, são pessoas queridas e respeitadas como tais.

É importante também que os filhos saibam que apesar de separados pai e mãe serão para sempre, que não tiveram participação na separação dos mesmos e que continuarão sendo amados. Finalmente, é necessário ressaltar que as atribuições dos pais, ainda que separados, permanecem, o compromisso com os filhos permanece, o que se desfaz é o casal.

Assim sendo, é possível perceber que, em relação a processos dolorosos da vida, como o divórcio, nosso sucesso como seres humanos, está em poder conviver com a dor e com o conflito, em poder manejar e aprender a apreciar as diferenças ao invés de negá-las. Está em poder viver e estruturar novas relações cada vez mais pautadas pelo afeto e cada vez menos organizadas por modelos impostos por convenções.